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16/5/2008
Vida Psíquica e Trabalho


 Vida Psíquica e Trabalho
 

No modelo tecnocrático de gestão os indivíduos pertencentes às camadas dominadas devem sentir que são considerados seres humanos (alguém se interessa por suas opiniões, por suas motivações). Eles não devem se dar conta de que, como em todo universo perverso, estão presos na armadilha de seus desejos de reconhecimento. Se não toma consciência dessa manipulação, dão-se de corpo e alma à vida organizacional, crendo se encontrar num conjunto cooperativo, que reclama sua adesão, sem desconfiar de que um dia a organização, indiferente, poderá rejeitá-los, sem pestanejar. O tecnocrata é preso no imaginário do domínio por meio de sua paixão pela razão.

Já o modelo estrategista é tomado inteiramente pelo imaginário do desempenho e da excelência, através da canalização de sua afetividade, de suas pulsões inconscientes e de sua reflexão. A organização apresentando-se como todo-poderosa (dando a imagem de pais combinados), fornece a cada sujeito os elementos de segurança que lhe permitirão saciar seu desejo de completude. A gestão pelo afetivo poderá encontrar na empresa estratégica o campo para seu desenvolvimento. Neste modelo a programação de longo prazo e a racionalidade ilimitada, características do modelo tecnocrático, são substituídas pela estratégia, e a racionalidade é irrigada pela paixão.

Estas organizações levam em conta a vida psíquica e o imaginário dos sujeitos, na medida em que sempre lhes propõem uma representação delas mesmas, que eles deveriam mais ou menos interiorizar se quisessem continuar sendo membros da organização. Os trabalhadores investem em seu trabalho, dele se apropriam, dão-lhe sentido e inscrevem uma parte de seus desejos e de seus projetos na organização. O trabalhador é pego, pois, mesmo no trabalho mais fragmentado, por sua consciência profissional.

A capacidade estratégica não é mais propriedade da elite e sim destinada a ‘qualquer um’. Todos ‘matadores suaves’. Os problemas essenciais postos pela instauração do vínculo social, como o desejo de morte, o ataque aos laços, o evitamento ou negação do outro, a apatia destrutiva e as tentativas de amor mútuo e investimento positivo,  são encontrados em todos os tipos de organização, sendo elas mesmas constitutivas do vínculo social.

A organização, com isso se instaura , funciona e se estabiliza no interior de um campo pulsional e passional. Seus dirigentes buscam fazer com os que os indivíduos a ela se liguem e a reforcem, construindo um imaginário social enganoso e uma doença de idealização. Buscam fazer calar a possibilidade de os sujeitos terem uma vida interior com seu repertório de interrogações e de dúvidas, estabelecer um processo de psicologização dos problemas, num universo onde as falhas nunca são da empresa e  sim das atitudes dos indivíduos.   

Os dirigentes de tais empresas  buscam também confundir o ideal de todo homem com o ideal da organização. Se a organização chega a provocar, ao mesmo tempo, nos indivíduos um sentimento de culpa e um sentimento de vergonha, ele tem ao seu dispor indivíduos prontos a se sacrificar por ela.

A organização tenta prender os sujeitos na armadilha de seus próprios desejos de afirmação narcísea, em que faz de tudo para atendê-los, e também na medida em que a organização assegura a eles que é capaz de protegê-los da quebra de sua identidade. Ela pede aos indivíduos não só para idealizá-la e identificar-se com ela, mas também para dar-lhe seu amor e a sua devoção incondicionais.

Assim, o imaginário do logro e a doença da idealização concorrem para criação de um mito coletivo ou de uma ideologia, não permitindo outras visões de mundo. Os valores  e as normas são, então, incorporados pelos indivíduos, impedindo a sua individuação, ou seja, a construção de um ser autônomo e auto-referenciado.

Com isso as organizações estratégicas criam sujeitos que se sabem excelentes e que só ligam à organização quando lhes é conveniente, sendo, via de regra, venais; cria também sujeitos que querem realmente se tornar autônomos, capazes de sublimação, interessados na racionalidade dos fins, que têm preocupações éticas e estão aptos a confrontar o estresse e a ansiedade.

A organização do tipo estratégico pode contribuir para criar sujeitos mais conscientes de seus objetivos do que ela pensa. Essas pessoas poderão, então, se tornar fundadores, mesmo no interior da organização, de novos modos de pensar e de agir, e promover outros projetos culturais.

Somente os indivíduos que escapam das malhas e das armadilhas de uma organização globalizante podem produzir o que realmente lhes causa medo e que é, na realidade, indispensável à sua sobrevivência e ao seu desenvolvimento.

posted by Oz at 08:32 AM | in:
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